[001.] GERAL.
Conta de RPG interpretativa e multiversal, adaptável a qualquer universo. O personagem é original, com plot próprio, criado inteiramente pelo player e com referências ao Universo Imortal escrito por Anne Rice e apresenta nas séries da AMC.
[002.] IN GAME.
Por desejar desenvolver esse personagem com escrita e continuidade reais, o player será seletivo com quem realmente interage. Se você foi seguido, significa interesse em plotar/interagir e talvez ainda não tenha tido a chance de se aproximar.
[003.] IMPORTANTE.
Tanto o player quanto o personagem são maiores de idade (+21). Temas sombrios e maduros são bem-vindos, desde que o outro player também seja maior de idade. Não existe writer account para esse player, então, caso queira discutir algo OOC, apenas DM.
Yuriy Kustodiev nasceu em 10 de abril de 1980, em São Petersburgo, quando a cidade ainda carregava a pesada sombra de um país que estava prestes a ruir. Cresceu num lugar onde o trabalho não era bem uma escolha e soava mais como uma sentença natural a se fazer. Os bairros operários, os estaleiros, os guindastes imóveis no horizonte e o cheiro constante de metal e óleo moldaram a infância de Yuriy mais do que qualquer discurso sobre futuro. Ele pertenceu à geração que atravessou a queda da União Soviética ainda jovem demais para entender e velha demais para não sentir. Nos anos noventa, tudo parecia provisório: o dinheiro, as promessas, as instituições, até mesmo as pessoas.
Desde cedo, Yuriy aprendeu a fazer coisas com as mãos. Havia algo de direto nisso, algo que não dependia de palavras. A soldagem entrou em sua vida como acontece com as profissões verdadeiras: sem romantismo. Era uma habilidade útil, respeitada, concreta. O tipo de conhecimento que podia atravessar crises, cidades e regimes. Ele se formou em escola técnica e começou a trabalhar em fábricas, canteiros industriais e estruturas portuárias. Soldava tubulações, reforçava vigas, reparava caldeiras. Um trabalho duro, repetitivo, mas previsível. Havia um ritmo, uma ordem, um fim de turno que significava retorno para casa. Foi nessa vida em que ele construiu o que chamaria de normalidade: uma companheira, uma filha pequena, um apartamento simples, uma rotina que não prometia grandeza, mas oferecia chão. Por alguns anos, Yuriy viveu como vivem milhões de homens anônimos: sustentando o mundo com as costas e esperando pouco em troca além de estabilidade.
E então, veio a ruptura.
Ele nunca contou a história inteira. Nem para colegas, nem para supervisores, nem para os poucos amigos que tinha. O que aconteceu com sua companheira e sua filha não se transformou em narrativa, porque ele não permitiu. Há tragédias que não cabem em nada que seja possível verbalizar. O que se sabe é apenas o resultado: elas se foram, e o mundo deixou de ter contorno. Depois disso, Yuriy permaneceu, mas de um jeito diferente. Como se tivesse ficado apenas a parte funcional de um homem. Ele continuou trabalhando por um tempo, mas o mundo real passou a parecer um lugar onde tudo lembrava demais. As ruas, os apartamentos, os sons comuns. O cotidiano virou uma espécie de eco. Foi quando começou a olhar para o mar e contemplá-lo como distância daquilo tudo. O setor offshore apareceu como uma possibilidade extrema, algo que ele precisava: semanas longe de qualquer coisa, turnos longos, confinamento, disciplina, risco. Para muitos, seria uma vida impossível. Para ele, era uma forma de silêncio.
A transição não foi simples. Offshore não aceita o improviso. Yuriy precisou de certificações, treinamentos e protocolos. Aprendeu sobre atmosferas explosivas, sobre procedimentos de evacuação, sobre segurança industrial levada ao limite. O trabalho em plataformas é uma engrenagem rígida e cada ferramenta tem um lugar específico, cada erro tem um peso real. Não existe espaço para distração quando se vive cercado por aço, gás e o oceano.
Quando embarcou pela primeira vez, entendeu rapidamente que aquilo não era apenas uma profissão nova, era um outro mundo. A plataforma nunca dorme. Há sempre ruído: bombas, compressores, alarmes de teste. O ar tem cheiro de combustível e sal. O horizonte é só água ou escuridão. A vida se reduz a módulos: cabine, refeitório, área de trabalho. E o tempo se mede em turnos de doze horas.
Como soldador offshore, Yuriy passou a atuar onde a estrutura não deve falhar. Reparos em tubulações, reforços metálicos corroídos pelo sal, manutenção preventiva em suportes submetidos a vibração constante ou até mesmo reparos em partes submersas da estrutura, que vem a ser sua atuação favorita. Muitas vezes, trabalho emergencial, feito sob pressão literal e simbólica. Cada solda é uma tentativa de manter intacto algo grande demais para ser visto por inteiro.
Ele se tornou muito bom nisso. E não era por ambição (apesar de receber consideravelmente mais do que costumava receber em terra), mas por necessidade de precisão. Há homens que se destacam porque querem subir. Yuriy se destacou porque não queria cair. A plataforma exige atenção absoluta, e talvez por isso tenha sido o único lugar onde sua mente encontrou alguma forma de descanso: ali, pensar demais era impossível. Existia apenas a tarefa. Com o tempo, os embarques se tornaram rotina. Semanas no mar, alguns dias em terra, depois de novo o mar. E o estranho é que o retorno sempre foi mais difícil do que a partida. Em terra firme, havia escolhas demais, silêncio demais, memória demais. No oceano, havia ordem. O trabalho funcionava como anestesia.
Yuriy não é um homem expansivo. Não conta histórias, não faz discursos. Os colegas o descrevem como reservado, metódico, alguém que fala o necessário. Ele toma café forte, fuma às vezes, escuta música baixa no alojamento. Não há traços de heroísmo, apenas resistência.
A profissão o ensinou economia emocional: pânico custa caro, sentimentalismo não solda o aço.
************** ACESSO RESTRITO **************
Desde a tragédia que envolveu sua família, Yuriy nunca aceitou plenamente a versão oficial dos fatos. A polícia local encerrou o caso com rapidez incomum. Os jornais repetiram a mesma narrativa em uníssono: um assalto comum, um agressor isolado, motivação banal. Um episódio estatístico, desses que não justificam prolongamento de investigação. Yuriy estava em turno de trabalho naquela manhã de segunda-feira. Horário confirmado, presença registrada. Um álibi perfeito e, para ele, insuportável.
O que o incomodava não era apenas a perda, mas as lacunas. Pequenas incongruências que não chamariam atenção de alguém que quisesse apenas seguir em frente. O laudo apontava violência, mas não explicava certos padrões. Marcas no ambiente que não correspondiam à luta. Um vizinho que afirmou ter ouvido e visto algo “como vento atravessando o apartamento”, relato descartado por parecer fantasioso. Um objeto metálico deformado sem força mecânica suficiente para justificá-lo. A interrupção momentânea do fornecimento elétrico no prédio, registrada, mas nunca correlacionada ao crime.
Yuriy começou sozinho. Leu tudo o que conseguiu obter: boletins, laudos, transcrições incompletas. Aprendeu a linguagem policial, depois a jurídica. Frequentou fóruns obscuros, arquivos abandonados, bibliotecas técnicas. Desenvolveu uma atenção quase patológica a padrões. Onde outros viam ruído, ele passou a enxergar repetição.
Com o tempo, sua investigação o levou além dos limites convencionais. Encontrou registros antigos de ocorrências semelhantes, sempre classificadas como crimes comuns, mas ligadas por detalhes estranhos: ausência de testemunhas diretas, descrições contraditórias de sons, animais agitados antes dos eventos, falhas elétricas breves, corpos encontrados em posições incompatíveis com luta ou fuga. Em alguns casos, câmeras de segurança simplesmente não registraram nada. Não por falha, mas por apagamento seletivo de segundos específicos.
Ele aprendeu a observar o que não estava nos relatórios, a obsessão cobrou seu preço. Yuriy tornou-se alguém silencioso demais, atento demais. Desenvolveu habilidades de investigação sem jamais ter sido treinado formalmente. Sabia seguir dinheiro, cruzar nomes, comparar arquivos de cidades diferentes. Chegou perto demais em mais de uma ocasião. Próximo o suficiente para que forças externas interviessem: documentos sumiram, contatos desapareciam, portas se fechavam sem explicação. Não era coincidência e ele sentia isso com clareza.
Foi nesse estado de quase ruptura que ela apareceu.
Uma mulher de meia-idade, aparência elegante, postura controlada, sotaque inglês impossível de disfarçar. Não o abordou de forma abrupta. Sabia onde encontrá-lo. Sabia quando falar. Chamava-se Margaret Ashcombe.
Ela sabia tudo. Não apenas os fatos públicos, mas detalhes que Yuriy jamais compartilhara: horários exatos, pensamentos registrados apenas em cadernos pessoais, caminhos de investigação que ele acreditava serem invisíveis. Sem pedir permissão, entregou-lhe um relatório. Não uma cópia policial, mas um dossiê paralelo, mais antigo, mais completo. Com informações que jamais haviam sido tornadas públicas. Ali estava a afirmação que ele recusou de imediato: sua companheira e sua filha não haviam sido mortas por pessoas comuns.
Margaret falou de algo que Yuriy conhecia apenas como folclore local, histórias descartadas, superstições regionais. Algo que se alimentava de padrões humanos, mas não obedecia a eles. Ele riu. Negou. Quis que fosse mentira. Passou semanas tentando desmontar cada afirmação do relatório. Até que ela apresentou provas que não podiam ser explicadas por lógica convencional: registros históricos correlatos, testemunhos independentes separados por décadas, medições ambientais impossíveis, imagens captadas por equipamentos que não respondem à sugestão ou histeria humana.
Foi então que Margaret revelou sua afiliação.
A Talamasca não é uma agência governamental nem uma seita. É uma ordem antiga, dedicada à observação, catalogação e contenção do que foge à compreensão humana comum. Seu princípio fundamental não é combater o sobrenatural, mas compreendê-lo e impedir que interfira de forma irreversível no mundo dos mortais. Seus membros raramente agem de forma aberta. A maioria vive integrada à sociedade, observando.
Margaret Ashcombe era uma dessas observadoras. A proposta que ela fez a Yuriy foi direta e cruelmente honesta: juntar-se à Talamasca não traria justiça imediata, nem vingança uma garantida. Mas o colocaria mais perto da verdade do que qualquer investigação solitária jamais permitiria. E, talvez, mais perto da entidade responsável.
Yuriy aceitou.
O treinamento não foi físico apenas. Ele já era resistente. O que a Talamasca fez foi refinar. Aprimoraram sua capacidade de observação, ensinaram-no a reconhecer padrões anômalos, a registrar eventos sem interferir, a distinguir superstição de atividade genuinamente sobrenatural. Aprendeu a desaparecer em ambientes comuns, a parecer irrelevante.
Sua vida offshore foi mantida não como fachada improvisada, mas como uma posição estratégica que a Talamasca precisava. Plataformas em alto-mar são pontos recorrentes de atividade anômala: isolamento, energia concentrada, mortes frequentes, silêncio institucional. Yuriy foi instruído a permanecer exatamente onde estava. Hoje, ele vive como sempre viveu aos olhos do mundo. Soldador offshore. Turnos longos. Confinamento. Silêncio.
Mas observa.
E registra.
E espera.
Pois há coisas que não esquecem aqueles que sobreviveram. E o que matou sua família ainda existe.